O desaparecimento do vapor ‘Cabedelo’: fevereiro de 1942

O mistério que envolve o desaparecimento do vapor “Cabedelo”, segue sendo um dos maiores enigmas da história marítima brasileira. O navio, originalmente chamado de Prússia, foi construído na Alemanha, em junho de 1912, nos estaleiros da Flensburger Schiffsbau A.G, na cidade litorânea de Flensburg, norte daquele país.

Possuía 3.557 toneladas, comprimento de 111 metros, por 15,5, calado de 6,7 m. A sua estrutura era de aço e era movido a vapor, com motores de tripla expansão, que davam a ele uma velocidade estimada de até 12 nós. Inicialmente operado pela companhia de navegação alemã Hamburg-Amerikanische Packetfahrt-Actien-Gesellschaft (HAPAG) Lloyd, foi usado, durante a I Guerra Mundial, como um navio de apoio a outros navios de guerra alemães naquele período. Contudo, em 1915, foi obrigado a internar-se no porto do Rio de Janeiro, Brasil, a exemplo de muitos outros navios alemães no período. Quando o Brasil entrou na guerra contra a Alemanha, em 1917, o navio foi apreendido pelo governo brasileiro. Mais tarde, foi designado para a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, sendo renomeado Cabedelo.

O nome foi dado em homenagem à então vila e porto de Cabedelo, no litoral do estado da Paraíba. O agora ‘brasileiro’ Cabedelo, realizava comércio de cabotagem pela costa brasileira e de longo curso, com rotas de comércio estabelecidas entre Europa e o Litoral dos Estados Unidos. Quando a II Guerra Mundial (1939-1945) teve início, o navio seguiu fazendo rota de Longo Curso. Entre o final de 1941 e o início de 1942, navios mercantes brasileiros começaram a ser atacados indiscriminadamente por submarinos alemães por todo o Atlântico. Apesar do perigo iminente, os navios continuavam fazendo a rota Brasil-EUA normalmente, sem auxílio de escoltas ou comboios.

A tripulação

O vapor Cabedelo era tripulado, segundo consta, por 55 homens, liderados pelo experiente comandante Pedro Veloso da Silva. De acordo com cada função, a tripulação estava assim constituída:

Comandante, Imediato, 1º Piloto, 2º Piloto, dois radiotelegrafistas, dois conferentes, um comissário, dois enfermeiros, um contramestre, três marinheiros, quatro moços de convés, cinco maquinistas, quatro cabo foguistas, nove foguistas, nove carvoeiros, três cozinheiros, um padeiro, quatro taifeiros e um carpinteiro.

A última viagem do Cabedelo

A situação iria tornar-se, no entanto, dramática para a navegação mercante nacional. Seguindo-se o rompimento das relações diplomáticas com os países do eixo (Alemanha, Itália e Japão) no início de 1942, os navios brasileiros passaram a ser constantemente atacados, justamente na rota Brasil-EUA. Era neste local que o Cabedelo se encontrava, no início de 1942. As fontes trazem informação de que o vapor brasileiro zarpou do porto da Filadélfia, na costa leste dos EUA, em 14 de fevereiro de 1942. O navio voltava para o Brasil com seus porões carregados com Carvão, importante minério. Era estimado que ele chegasse ao litoral brasileiro após cerca de dez a doze dias de viagem.

Ironicamente, um dos portos de destino do vapor Cabedelo, era justamente o de Cabedelo, no litoral da Paraíba, do qual advinha o seu nome, e o destino final, seria o porto do Rio de Janeiro. O navio deveria chegar ao Brasil, após cerca de duas semanas de viagem. Contudo, os dias foram passando, e ainda não havia notícias do paradeiro do navio ou de sua tripulação. No dia 8 de abril de 1942, passados quase dois meses da partida do Cabedelo do litoral americano, as autoridades brasileiras reconheceram que o vapor estava “desaparecido”.

Recorte do jornal ''Correio da Manhã" (RJ) datado do dia 8 de abril de 1942, noticiando o desaparecimento do Cabedelo.

Recorte o jornal Correio da Manhã (RJ), datado do dia 8 de abril de 1942, informando sobre o desaparecimento do Cabedelo. Fonte: Biblioteca Nacional – RJ.

As informações sobre o desaparecimento do vapor brasileiro foram confirmadas após pedido do Ministério das Relações Exteriores do Brasil ao governo dos EUA, que buscava saber sobre o paradeiro do navio. Infelizmente, a resposta foi negativa. Não havia qualquer indício do navio, muito menos de sua tripulação, mesmo após semanas. O que teria acontecido com o Cabedelo?

No final de junho de 1942, lamentavelmente, todos os tripulantes do Cabedelo foram considerados mortos em definitivo. Ainda havia esperanças de que eles pudessem ter sido capturados. Mas não havia evidência acerca do paradeiro da tripulação. Desde quando as notícias do desaparecimento do navio começaram a circular, os jornais brasileiros culparam de imediato, os submarinos do Eixo pelo afundamento da embarcação. De fato, é sabido que a área onde o Cabedelo navegava, estava infestada de submarinos, tanto alemães quanto italianos. Naqueles mesmos dias de meados de fevereiro de 1942, dois navios mercantes brasileiros haviam sido torpedeados na costa dos EUA: o Buarque e o Olinda. Porém, ambos foram confirmados como vítimas de um submarino alemão, o U-432, comandando por Heinz-Otto Schultze.

Mas, do Cabedelo, nada se sabia.

Mapa da provável rota que seria usada pelo vapor Cabedelo, entre a Philadelphia e a Paraíba. A marca representa o local aproximado onde possivelmente, ocorreu o naufrágio. Fonte: autoria própria.

Qual teria sido então, o destino do Cabedelo? Segundo as fontes, dificilmente eles teriam sido vítimas da “fortuna do mar”, uma vez que as condições climáticas naquela região estavam boas no momento em que zarparam dos Estados Unidos. Não haviam tempestades ou furacões em sua rota. A hipótese mais aceita, é a de que o vapor tenha sido vítima de um submarino do Eixo, não alemão, mas italiano. As suspeitas apontam principalmente para o submarino italiano Da Vinci, que operava naquelas águas, junto a outros. Esta hipótese foi levantada por pesquisadores europeus, anos após o conflito terminado. Porém, ela também é questionada, pois não houve registro algum a partir deste submarino de que teria sido efetuado afundamento nestas águas, em data aproximada.

Submarino italiano Da Vinci. Teria sido ele o algoz do Cabedelo? Fonte: Wikipedia.

Em muitas ocasiões, durante a guerra, navios mercantes torpedeados por submarinos foram a pique, sem que a tripulação ou passageiros tivessem chance de se dirigir até balsas ou botes salva-vidas. Talvez este tenha sido o trágico destino da tripulação do navio. Contudo, mesmo que tivesse desaparecido por completo, o registro de tal ataque deveria constar nos diários de bordo dos submarinos ou embarcações inimigas operando na área naqueles dias de fevereiro de 42, e até então, não houve menção. Teria este ataque sido omitido de propósito? Se sim, porque? Uma das hipóteses levantadas é a de que os infelizes tripulantes sobreviventes do naufrágio possam ter sido metralhados na água por italianos ou alemães, fato que, apesar de raro, ocorreu durante a guerra. Ao omitir o ataque do diário de bordo, os comandantes não seriam julgados por crimes de guerra a posteriori. Mas isso também nunca ficou provado, uma vez que, no local aproximado do naufrágio, não restaram vestígios materiais ou humanos do suposto ataque.

As demais suspeitas recaíram sobre outros submarinos italianos, e mesmo alemães, contudo, até os dias atuais, nenhum dos registros de bordo dos submarinos faz menção ao afundamento de qualquer embarcação, que poderia ser um indício do Cabedelo. A região marinha para onde o navio brasileiro se dirigia passava também, pelo famoso Triângulo das Bermudas, uma zona conhecida pelo aparecimento repentino de tempestades e distúrbios eletromagnéticos. Teria o navio sido pego repentinamente e de surpresa por algum fenômeno natural?

O mistério permanece até os dias de hoje, e talvez, nunca tenha uma real solução. A descoberta do naufrágio poderia ajudar a responder a muitas perguntas, principalmente, se houve ou não ataque por parte de submarinos inimigos, ou se ele teria afundado mediantes outras circunstâncias. A perda do Cabedelo foi um grande golpe moral para o Brasil. A imprensa na época, culpou a “pirataria eixista” pelo naufrágio. Os eventos que se seguiram levariam o país sul-americano a entrar na II Guerra Mundial em definitivo, no final de agosto de 1942.

Fontes:

https://www.wrecksite.eu/

https://www.wikipedia.org/

https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

George Henrique
George Henrique
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