As Viagens de Gulliver e as ilhas desconhecidas

O escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745) publicou seu mais famoso livro intitulado Viagens a diversos países remotos do mundo, em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e mais tarde capitão de vários navios (1726), mais conhecido simplesmente como As Viagens de Gulliver. A obra trata-se de um romance de aventura em que acompanha o médico inglês Lemuel Gulliver em expedições ocorridas entre os anos de 1699 e 1715.

Frontispício da primeira edição de As Viagens de Gulliver (1726).

Gulliver torna-se inicialmente médico de navios de comércio, depois desperta o interesse pela navegação, compra um pequeno navio e se torna capitão, iniciando suas próprias viagens pelo mundo. Apesar do tom satírico a sociedade e política britânica, o livro de Swift também refere-se a uma questão em voga no período: os oceanos e mares ainda estavam sendo mapeados.

Para se ter ideia, grande parte da Oceania seguia desconhecida na época que o livro foi publicado. Havia ilhas no Atlântico e no Índico também desconhecidas, além disso, soma-se o fato que o interior dos continentes americano, africano e asiático eram ainda desconhecidos pelos europeus. Sendo assim, Swift aproveitou para escrever um livro satírico que explorava povos estranhos que serviriam de estereótipos para seu enredo.

Em sua viagem inicial em 1699, o primeiro país visitado por Gulliver é Liliput, uma ilha habitada por um povo minúsculo, erroneamente comparados a anões. Na prática os liliputianos possuem menos de 10 cm de altura, assim, Gulliver é considerado um gigante. De qualquer forma, Liliput é uma referência a própria Inglaterra em termos arquitetônicos, culturais e sociais, mas sendo governada por um rei autoritário que ambiciona subjugar o país vizinho (reflexo da mentalidade do imperialismo da época) de Blefuscu. Gulliver acaba se vendo diante de uma guerra, na qual ele é considerado uma arma em potencial por conta de ser um gigante diante daqueles minúsculos povos.

Gulliver e os liliputianos. Pintura de Jehan Georges Vibert, séc. XIX.

Gulliver abandona a briga dos dois países e consegue voltar para casa. Em 1702 ele volta a navegar e acaba sendo abandonado por sua tripulação numa ilha no Atlântico Norte, cujo país é chamado de Brobdingnag, a terra dos gigantes. Nesta ilha Gulliver viveu por quatro anos, sendo prisioneiro dos gigantes, e por conta de seu tamanho minúsculo, era tratado como uma curiosidade, sendo forçado a se exibir e participar de espetáculos para agradar o povo e a corte. Nesta parte do livro, Swift fez uma crítica a exploração de pessoas de outras terras, considerados exóticos, os quais eram exibidos nas colônias inglesas ou no próprio Reino Unido.

A terceira viagem de Gulliver ocorreu em 1706, após ele ser capturado por uma águia gigante que o abandonou numa ilha deserta próximo da Índia. Ali Gulliver é resgatado pelo país flutuante Laputa, situado numa ilha voadora. Aqui entramos na ideia do exótico e maravilhoso associado ao Oriente. Laputa é descrita como uma civilização avançada tecnologicamente, mas moralmente apática, inclusive fazendo guerra contra vários povos.

De Laputa, Gulliver parte para visitar outras ilhas estranhas pelo Índico e o Pacífico, viajando pelos quatro anos seguintes até finalmente chegar ao Japão, país na época recluso ao contato com os europeus há quase cem anos. No Japão é mencionado essa reclusão e a intolerância religiosa com o cristianismo. O imperador japonês chega até ofertar morada a Gulliver, desde que ele renunciasse sua fé e costumes, mas Gulliver pede por clemência e que possa ir embora. Assim, um navio o leva até a China, de onde ele embarca de volta a Inglaterra.

Gulliver retorna para casa em abril de 1710, mas motivado pela ânsia de desbravar o mundo, ainda mais pela condição de ter passado os últimos oito anos viajando por países estranhos, ele compra um navio e se lança ao desconhecido. A viagem rumo às Índias se mostra bastante difícil e parte da tripulação adoece e morre, levando Gulliver e recrutar novos membros que cometem motim. Eles o abandonam numa ilha estranha e vão embora. Nesta ilha Gulliver conhece os Houyhnhnms (uma raça de cavalos inteligentes) e os Yahoos (uma raça de homens-macacos selvagens).

Os Yahoos trabalhando numa plantação para os Houyhnhnms. Louis John Rhead, datado de entre final do XIX ou começo do XX.

Gulliver passa a viver entre os Houyhnhnms por cinco anos, considerando-os um povo apesar de alguns costumes estranhos, bem educado e até virtuoso, diferente dos Yahoos que são primitivos e selvagens. Neste ponto, os Yahoos representam tanto uma crítica social de Swift a rudeza de certas pessoas, mas também é baseado na percepção eurocêntrica de povos primitivos que viveriam nos outros continentes, os quais eram escravizados, pois os Houyhnhnms os tratavam como escravos.

Diferente dos povos de Liliput e Brobdingnag que são mais parecidos com os europeus (embora algumas ilustrações o retratem com características asiáticas), os povos dos outros países apresentam costumes e culturas exóticas, estranhas, bárbaras, inferiores. Isso é reflexo do pensamento colonial e imperialista do período, numa época em que terras ainda eram “descobertas” pelos europeus, então imaginava-se existir locais fantásticos, num sentido positivo e negativo.

Referências

SWIFT, Jonathan. Gulliver’s travels: complete, authoritative text with biographical and historical contexts, critical history, and essays from five contemporary critical perspectives. Boston: Bedford Books of St. Martin’s Press, 1995.

Leandro Vilar
Leandro Vilar

Sou historiador, professor, escritor, poeta e blogueiro. Membro do Museu Virtual Marítimo EXEA, membro do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (NEVE).

Artigos: 30
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