Todos a bordo! : trabalhadores civis nos navios da Marinha Imperial alemã

Quando a Alemanha surgiu, a partir da unificação feita em 1871, possuía um território significativo na Europa Central, onde milhões de pessoas compartilhavam em sua maioria, o mesmo idioma e culturas semelhantes.

Quando a Alemanha surgiu, a partir da unificação feita em 1871, possuía um território significativo na Europa Central, onde milhões de pessoas compartilhavam em sua maioria, o mesmo idioma e culturas semelhantes. Tal unificação não foi feita sem desafios gigantescos: foram necessários muitos anos de debates na arena política e nos campos de batalha: a princípio, derrotaram os seus vizinhos Austríacos com seu império multiétnico e nacional no Leste, e ao Oeste, derrotaram a França de Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana.

Assim sendo, a Alemanha surge como uma nova potência continental na Europa, com numerosa população, industrializada e com um exército profissional e moderno. Contudo, apesar desta suposta ‘supremacia’ em terra, a Alemanha tinha um grave problema: o mar. Seu litoral, que se divide entre os mares do Norte e Báltico, é pequeno. No fim da década de 1890 e início de 1900, a nova política alemã voltou-se ao fortalecimento de suas colônias ultramarinas, adquiridas através do Congresso de Berlim, alguns anos antes. Fazer crescer o comércio demandava uma poderosa Marinha Mercante, e igualmente importante, uma Força Naval que fosse capaz de protegê-la. Portanto, o choque com as potências navais da época, em especial a Inglaterra, foi inevitável.

A princípio, concentrada no Mar do Norte, esta nova Frota Naval deveria estar preparada para romper qualquer bloqueio naval que fosse instituído pelo Reino Unido (Inglaterra). Acessar o Oceano Atlântico era fundamental para os alemães, e jamais conseguiriam isso sem uma poderosa Marinha. O Reich, segundo Herwig, propôs na época, a criação de uma força naval composta por 41 Couraçados, 20 grandes cruzadores, e 40 cruzadores leves. A Alemanha já possuia em 1900, o embrião de um grande Império Colonial. Sob a chancelaria de Otto Von Bismarck, nos idos de 1880, havia adquirido a África Alemã do Sudoeste (Namíbia), o Togo, Camarões, A África Oriental Alemã (Tanzânia), e no Oriente, a Nova Guiné e as Ilhas Marschal. Somando-se a essas últimas, adicionou-se Kaochow, Carolinas, Palau, Ilhas Marianas e partes de Samoa.

A Frota alemã, portanto, deveria proteger os oceanos do mundo para garantir que estas colônias ficassem intactas. Para tal, era necessário não apenas construir os navios necessários, mas tripula-los, com profissionais preparados para os serviços necessários aos navios, desde a navegação, a manutenção, abastecimento e manuseio das armas. Contudo, para além dos oficiais e marujos da Marinha Imperial Alemã, estes também eram tripulados por outros tipos de profissionais. Não eram necessariamente profissionais ligados ao mar, porém, eram indispensáveis à vida a bordo.

O Baurat

Baurat é uma palavra alemã que indica um profissional responsável pelo planejamento e controle. Herwig, que estudou de forma profunda a Marinha Imperial Alemã, apontou que a Kaiserlichemarine possuía em seus quadros, um número significativo de “servidores civis em uniforme” na Marinha, mais notavelmente formada por engenheiros construtores. Em 10 de abril de 1899, foi instituído o Geheimer Baurat, com a patente de almirante, seguido pelo SchilJbaudirektor (Capitão), Marine berbaurat (Comandante), Marine Baurat (Tenente Comandante), e Schiff / Maschinenbauingenieur, (Tenentes). Não eram propriamente oficiais, no significado estrito da palavra, porém, estes homens possuíam conhecimento técnico adquirido em colégios (diplomados), propriamente em engenharia naval, e não podiam almejar patentes militares superiores. Eles constituíam um ramo especializado do serviço como técnicos, não enquanto militares propriamente ditos.

Os carvoeiros

Talvez, o trabalho mais odiado a bordo dos grandes navios a vapor de seu tempo, ser carvoeiro não era uma tarefa simples: carregar quilos e quilos de carvão para bordo e além disso, colocá-los nas caldeiras era um trabalho sujo, insalubre e nem um pouco apreciado. Embarcá-lo nos navios era uma tarefa demorada mesmo nos portos, e em certas situações de emergência, era feito em alto-mar. A dependência de carvão por parte dos grandes navios de guerra no final do século 19 e início do 20, demandava igualmente o controle de regiões que fornecessem madeira ideal para tal (carvão vegetal) ou de jazidas minerais (carvão mineral). Não só membros da própria tripulação eram requisitados para a tarefa, mas trabalhadores em terra contratados eram comuns a bordo.

Padeiros

Os maiores navios da frota possuíam padarias a bordo, e isso não era algo considerado como “luxo”: a própria cultura alimentar alemã trazia consigo grande consumo de pão. Servido à tripulação, era geralmente duro e em quantidades parcas. Cada homem recebia uma quantidade de pão equivalente a aprox. 3 kg para ser consumido em 4 dias de viagem. Era permitido aos homens adquirir quantidades extras de rações a bordo, porém a preços exorbitantes.

Cozinha e Lavanderia

Existiam situações, especialmente nas colônias de ultramar, em que os trabalhadores eram recrutados para bordo dos navios visando realizar diversos trabalhos, entre os quais se registram os de cozinheiros e lavanderia. Só a bordo do cruzador alemão Gneisenau, haviam 14 lavadeiros. Na colônia alemã de Tsingtao (Qindgao) no litoral chinês, por exemplo, trabalhadores locais realizavam tais trabalhos a bordo, que podiam durar semanas ou meses. Com a conflagração de agosto de 1914, a frota alemã do Extremo Oriente comandada pelo almirante Maximilian von Spee, teve que zarpar às pressas para a Europa. Em correspondência com sua esposa, Spee revelou que lamentou muito a ausência dos chineses a bordo dos navios alemães, por serem bons trabalhadores e especialmente, bons cozinheiros. Segundo o almirante, a comida que era feita pelos alemães oriundos dos navios mercantes “não era nem um pouco boa”.

Os trabalhadores chineses haviam sido substituídos por reservistas alemães, civis recrutados que estavam a bordo de navios mercantes e de passageiros de bandeira alemã que se encontravam na região quando a guerra começou. Na ocasião da chegada a Valparaíso (Chile) meses depois e após a vitória na Batalha Naval de Coronel (1º de novembro de 1914), a frota alemã recebeu a bordo mais trabalhadores civis.

Foguistas, Carpinteiros e Artesãos

Na estadia no Chile, milhares de expatriados alemães que residiam em Valparaíso , bem como membros de tripulações de mercantes ancorados ali (e que haviam ficado presos nos portos devido à conflagração de 1914), ofereceram-se para ir a bordo a Frota. Segundo consta, a imensa maioria deles era “inadequada para serviço em navio de guerra”. Contudo, os engenheiros e foguistas foram considerados aquisições de grande valor e colocados a bordo para reforçar a casa das máquinas. Também foram alistados neste porto, carpinteiros navais, alguns padeiros e artesãos. Infelizmente, para esses civis, muitos deles levados por espírito patriótico e aventura, um destino nada agradável os aguardava. No retorno para a Alemanha, a frota seria interceptada na altura das Ilhas Malvinas (Falklands), sendo ela totalmente destruída pela Marinha Real Britânica.

Fontes de pesquisa:

SONDHAUS, Lawrence. The Great War at Sea: A Naval History of the First World War. Cambridge University Press, 2014.

HERWIG, Holger. ‘Luxury’Fleet:(RLE The First World War): The Imperial German Navy 1888-1918. Routledge, 2014.

Imagens: Wikicommons e Google Maps.

George Henrique
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